2. Atingida com uma pedra

Acordei com uma neura descomunal…

Duas noites mal dormidas… O prazo de entrega do trabalho a acabar…

Tirei uma semana de licença para terminar o relatório e já gastei quase três dias…

Toca a abrir o computador outra vez… Uma folha em branco, um cursor a piscar e nada.

No canto inferior esquerdo aparece o ícone do Messenger a piscar: “Nuno está on-line”.

O meu amigo Nuno Mata, grande entusiasta de fantasia, amigo de infância e com um certo… digamos… espírito druídico… estava a dar-me os bons dias. “Então Sónia, como vai isso?”

Foi tudo o que precisei para descarregar o meu desespero…

“Não consigo concentrar-me Nuno! Tenho tido uns sonhos muito intensos e esquisitos!…”

“Então? Conta…” Parece que o estou a ver…

Contei-lhe. Contei-lhe tudo. A história da febre, das imagens… Para mim nada fazia sentido…

“Escreve!” disse-me ele. “Escreve o que sonhas para tirares isso da cabeça!”

Escreve? Escreve como?

“Esquece o que estás a fazer e escreve tudo, tal e qual como me estás a contar…”

E escrevi.

Comecei por fazer uma descrição do que via e do que sentia. Abri um outro documento, uma tabela, para tentar organizar o pensamento. Nada daquilo fazia sentido… comboios, tribos celtiberas, romanos… Mas despejei tudo numa folha pensando que a teoria do meu amigo poderia resultar.

À hora de almoço já tinha conseguido começar o relatório. Sucesso! Estava de volta! Que estupidez a minha deixar-me absorver por sonhos parvos!

Só que… bem… a noite chegou. Essa sedutora e mágica senhora que exulta tudo o que de mais bizarro habita em nós.

E as imagens chegaram.

Sonhei que descia uma escadaria, num solar feito de pedra. Sentia até o piso debaixo dos pés, a pedra fria do corrimão sob a minha mão. Saí para a rua envolvida num xaile. Olhei para trás. Uma casa apalaçada, de pedra clara. Fachada imponente. Decorei-lhe os traços.

Recomeçou a correria… Estava aterrorizada. Na floresta outra vez? Encostei-me a uma árvore coberta de musgo… Senti o seu respirar… Estava em pânico! O meu perseguidor estava ali!

Acordei.

Mas o que se passava comigo!?

Estaria a enlouquecer?

Saí do quarto, eram 4:00h… lembro-me disso…

Liguei o computador e comecei freneticamente à procura não sei bem de quê… aquela casa, aquelas imagens… sou uma investigadora… Espírito critico! Vamos lá rapariga!

Despejei na barra de pesquisa tudo o que me lembrei… comboios, solar, romanos…

E de repente… Sem que o pudesse ou conseguisse controlar… A casa com que sonhei… Essa casa onde descia as escadas, materializou-se… estava ali à minha frente.

Existia.

Era real.

Atingiu-me como uma pedra e a minha vida deu uma volta de 180 graus.

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